“Sou acadêmica, esse é meu defeito de fabricação.” Foi com essa frase que Heloiza Matos, organizadora do livro “Comunicação e Política: capital social, reconhecimento e deliberação pública”, iniciou a última edição do ano do Pão com Manteiga sobre o tema.
Ela é doutora em Ciências da Comunicação e mestre pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Realizou estágio pós-doutoral junto ao GRESEC (Groupe de Recherche sur les Enjeux de la Communication), Université Stendhal, Grenoble III, em 1995 e 2007, quando desenvolveu uma pesquisa sobre Capital Social, Comunicação e Tecnologia, que deu origem ao livro “Capital Social e Comunicação: interfaces e articulações”.
Há três tipos de capital:
. físico – estrutura da organização
. humano – foco do trabalho de comunicação, pensar nas pessoas, o quanto é importante a aproximação entre as pessoas.
. social – conjunto de interações comunicativas que demandam a confiança e a reciprocidade.
As agências internacionais tomam o capital social, assim como o IDH de um país, como uma referência para qualificar as organizações. Quanto maior a aproximação, a comunicação, a interação, entre os elementos que fazem parte do ambiente, seja de uma organização, de uma cidade, de um país, maior o nível de capital social.
Assim, capital social não é um bem individual, é um bem coletivo.
Entendemos que pra existir, pressupõe respeito e tolerância pela diferença. Condições existenciais e coletivas, que permitam o reconhecimento da identidade do outro.
“Alguém só cria sua identidade com o reconhecimento do outro. Isso em um ambiente de trabalho, na comunicação interna é muito importante, afirmou Heloiza.
Mas o que completa esse processo é a deliberação. Quando tomamos a decisão. Então a discussão pode ser inócua se não houver deliberação.
Portanto, Heloiza Matos define capital social como sendo as interações comunicativas pautadas na confiança e reciprocidade, mas para que ele sobreviva é necessário o respeito às diferenças e o reconhecimento a identidade do outro, além de competência comunicativa e predisposição ao diálogo, características que devem estar no DNA da organização.
Segundo ela, o capital social é fundamental no ambiente corporativo, pois oferece à empresa a oportunidade de aumentar o grau de colaboração dos funcionários com a empresa e promove o engajamento. “Eles precisam se sentir parte do processo, não só instrumento”, disse a consultora.
Luiz Santiago e Sueli Yngaunis, coautores do livro e também consultores do Pão com Manteiga, trouxeram ricas informações dos estudos que originaram a publicação.
Luiz Santiago alertou que as relações de confiança e reciprocidade podem ser utilizadas de forma negativa. Ele afirma que para o capital social ser utilizado de forma favorável à empresa é preciso constante comunicação a respeito da cultura organizacional, esta feita através da liderança, estabelecendo objetivos comuns, elevando o nível de colaboração. “Dentro do processo da comunicação interna, ultrapassamos a discussão dos meios em si, porque o principal meio é o líder. É prerrogativa dele, transmitir Missão, Visão e Valores aos colaboradores. Essas são as regras do jogo.”
“A comunicação está presente em tudo, porque é estabelecida pelas relações humanas”, diz Luiz. E é com essa crença que nós, comunicadores, tornaremos a comunicação parte de todos os processos de uma empresa, disseminando o seu valor estratégico para o sucesso dos negócios.
Para Sueli Yngaunis, três forças prejudicam a boa comunicação interna: o poder (resistência ao processo), cultura (em permanente desenvolvimento) e a falta de capital social, que pressupõe interação, troca e relacionamento humano.
“Comunicação gera comportamento, mas comunicadores não controlam comportamentos”, diz Sueli. Apesar disso, podemos ser otimistas, porque especialistas da área enxergam mudanças no cenário, vendo a comunicação exercer um papel estratégico nas organizações.
O grupo formado por Cyra Morato da Boxe Propaganda, Elaine Barreto da Sem Parar, Ewerton Mendonça da Sky, Marcelle Bernardo da DuPont, Viviane Mansi da Takeda e Rodrigo Cogo do Mundo RP, levantou o seguinte desafio: como usar o capital social para alcançar melhores resultados em comunicação interna.
As recomendações dos autores convidados foram para que as organizações, tanto públicas como privadas, desenvolvam o capital comunicacional, porque ele é relacional. O capital social só faz sentido, se houver competência comunicativa. Para isso, há a necessidade da organização se abrir ao diálogo.
Tags: Pão com Manteiga
02/12/2011 às 10:17
Foi bom demais reencontrar e conhecer novos profissionais de comunicação para debater este tema. Obrigado a todos pela oportunidade e parabéns, mais uma vez, à KlaumonForma pela organização do evento e por manter este espaço dialógico e incentivar projetos desta natureza. Abraços, Luiz Santiago.
03/12/2011 às 9:09
Luiz, Heloiza e Sueli,
A gente só aprende com vocês e os demais consultores que nos prestigiam no Pão. O prazer é nosso e dos demais comunicadores que ao longo dos últimos 9 anos se mantêm presente. Valeu!